Pesquisar este blog

terça-feira, 11 de junho de 2013


12 de novembro de 2006.
           

O Di Giorgio solitário.

Aproximadamente nove e cinco da noite. Adal e Donat ensaiavam junto, o sonho.
- Peraê que vo ver porque as luzes se apagaram. Acho que foi de propósito. –Disse Adal levantando-se.
- Tá valendo! Num demora não,  por que se demorar podemos esquecer o aranjo.
Na verdade, essa não era a grande preocupação de Donat, mas sim, ele não se ver protegido no escuro, sente medo.
- Que nada! Tem como esquecer não. –Então Adal foi verificar a energia.
            Donat com seu violão Di Giorgio empenhava-se ao Maximo numa canção de sua autoria. Cantar sempre lhe  tirava a visão do escuro, deixava então de sentir um terror imaginário. Ecoava uma voz  acutíssima e rouca no manto de escuridão que encobria a oficina. A ressonância do amor platônico de Donat misturava-se ao cheiro de madeira, cigarro, maconha e dos dóceis cahorros que jaziam por ali.
 A canção solitária acaba-se, momento em que Donat concebe seu amor numa outra frase: “Sou um mundo equivocado avocando o amor”. Frase que lhe põe de volta a escuridão da oficina.
            Retira do bolso mais um cigarro, traz na outra mão um celular cheio de luz e mensagens, e põe-se a procurar pelo fósforo. Assim que acha o fogo para o cigarro, acha também o vulto, companheiro teu, presente no teto preto passado. Declama para os olhos do cão que lhe olha carente postado entre suas pernas: “Faça-se luz! E assim se fez” E o fósforo obedece-o, a luz do âmbito não.
            Tateando com o único auxilio, o da chama do cigarro, volta-se para janela tentando pela fresta entender o falatório agitado do portão. Deu pra se ouvir os passos exaltados de dona Pomposa, e a sua voz que, beirava o irritante.  
- Não, claro que não há permissão. –Pomposa aos brados.
- Meu querido, solte ela! –Adal socando-os
Ai, o grito penoso da ex-professora foi como uma rajada de angustia. Deu pra traduzir isso em seu gutural. –Berrava  inflamada: “Adaaal”!
            Os tiros seguidos e brasantes atingiram Adal, que antes ao grito de dona Pomposa, estava a socar rosto de uns dos policiais que rendia a caridosa professora contra a árvore escamosa e áspera.
            Logo se via ao chão um talentoso, criativo e original musico. Derramada ali, junto ao ainda aquecido corpo, estava sua palheta cor branca, feita de material pvc, moldada ao teu bel-prazer. Com ela, minutos atrás,  ouvia-se na claridade da antiguada oficina  melódicas e harmoniosas canções, transpostas do plano interior à guitarra, maravilha que talvez não torne a ser escutada, não nesta cidade, onde todos caminham apressadamente para o óbvio precipício.

Jardim invisível

Jardim invisível

sábado, 11 de fevereiro de 2012

D’onde estais?

...Eu vou correr pra ver se pego aquele ônibus lotado. Com ele, a esperança de um lugar que me caiba sentado. Assim, tornando-me escravo de uma possibilidade que compete com as possibilidades de outrem. Chego crer que o comum empurra-empurra é quase um golpe tático pela vaga dos sentados por aqui.
...Com um linguajado de escravo dos escravos. Que era digno de escárnio emocionou-me, talvez a todos.  Como musica boa, tocada e escutada pela primeira vez, ainda que fosse uma questão tão familiar a todos do recinto.
...Sua aparência não era das melhores. Simpatia...? Talvez. Mas sim, sabia ser esperto, pois vendia chocolate, legalmente feito a viciar. O preço era só o troco da passagem. O sabor? Não provei. Infelizmente o cigarro me é mais importante. –Escravo! Sou e não nego. Tanto sou como um padre, escravo do caráter, que nem por amor é permitido desatinar. Tanto sou quanto uma criança, poupada da dor pela inocência, e, como se não bastasse, isso não representa nem um terço de vida de um individuo. Sou, tanto quanto o diabo é meu escravo e dependente de mim para existir, então ser escravo do mal que lhe constitui.
    ...Ao ser mesquinho: Nós o desafiamos a um confronto sangrento. Eu e essa metade ridiculamente manipulada pelos imponentes seres terreno. E no fim sairei vitorioso. Só em matar essa face medrosa e incapaz. Então, eu os pendurarei na porta de minha casa, em homenagem a esses cadáveres, cantarei trovas de escárnio. Como a um vampiro drenarei de ti toda a eternidade, e com a voz rouca direi: Do pó viemos com o pó iremos. –Ironicamente.
    ...Sou mesmo assim, Deus maculado, escravo do deus que nos convém não provar a existência de outros seres. E o que nos resta? Somente duvidas. Em fim, não saberei nunca quem é o escravo e o escravizador.  Mas que no fim, promete-nos cerzir as almas ou cinda-las do corpo, e bem..., Em fim, seja como for. Então te perpetuar onipotente e benevolente?  Oh, Deus! Onde estares se não na persistência derradeira das ondas dos mares? Ou como força da fé de um burro, que não agüenta o peso, mas vai até a morte. Se não for como um cosmo esta escandalosa abstração. Ai, sujeito, sujeito... Estares sentado num trono? Estares observando teu filho masturba-se? Estais? Estais sendo meu escravo? Estares com um raio na mão, esperando uma de suas filhas cederem ao orgasmo? Estares num maldito confessionário, junto de uma maldita reza de brancos, guardando um maldito sábado para louvar um maldito domingo? Como um deus entre tantos, eu maldigo-o! Mas como parte do corpo de um deus verdadeiro, eu clamo-te. Onde tu estás em quanto estou aqui, sentado neste inferno! Eu venci! Venci a mim e o diabo! E como um todo numa guerra, herdei do inimigo o pecado por mim conquistado.